Campeonato do atraso

Recentemente, uma policial militar matou um assaltante na periferia de São Paulo, o que nos deu nova, e excelente, oportunidade, para praticarmos nosso esporte favorito, o de nos xingarmos mutuamente sem moderação. (…)

A direita precisa abandonar a curiosa suposição de que aumentar a violência é um bom caminho para diminuir a violência. A esquerda precisa abandonar a absurda ideia de que criminosos são românticos.

Enquanto a direita repete Washington Luís, insistindo que “a questão social é um caso de polícia”, e a esquerda teima em tratar casos de polícia como questão social. Estão ambos parados nos anos 1920, e, no campeonato do atraso, todos somos derrotados.

Minha coluna no Globo de hoje. https://glo.bo/2KJof1b

Medici

Estou vendo uma série chamada “Medici”, no Now. Não, não é sobre o general-presidente. É sobre a família mais poderosa da Itália durante a Renascença. Por enquanto, está contando a história do patriarca Cosimo, o Velho, avô de Lorenzo, o Magnífico. Para quem gosta da Renascença, de Florença, e intrigas palacianas, é imperdível. E Dustin Hoffmann faz uma ponta. É interessante ver a Florença da época, e é de tirar o fôlego a cena em que Cosimo fica em pé no alto da catedral, Santa Maria del Fiore, uma das igrejas mais conhecidas do mundo (foto), ainda sem cúpula, tendo ao fundo o Palazzo della Signoria. A construção da cúpula, além de ser uma obra caríssima, era considerada algo impossível, dada a extensão do vão. Cosimo entrega a tarefa a Filippo Brunelleschi que projeta e executa a cúpula na forma como é hoje, um dos grandes feitos de arquitetura da história. Cosimo decide erguer a cúpula porque Florença, em guerra, está mergulhada numa crise econômica: há recessão, desemprego e fome. Ao construir a cúpula, Cosimo gasta como se não houvesse amanhã, dá emprego a todo mundo e restaura a prosperidade. Cosimo de’ Medici era um keynesiano!

Erramos. Pedimos desculpas

A convicção da virtude leva as pessoas a atos espantosos. Por uma “causa”, os militares se sentiram autorizados a censurar, perseguir, prender, exilar, torturar e assassinar, e os petistas se sentiram autorizados a assaltar o Estado.

Sob Geisel, os militares assassinaram, por determinação do presidente, dezenas de pessoas; em 2018, por determinação do presidente, os militares estão a um passo de solucionar os assassinatos de Marielle e de Anderson (viva!), ocorridos há exatos dois meses.

A diferença entre os militares de ontem e de hoje é radical, mas a corporação se recusa a admitir o óbvio: que errou. Não há general capaz de dizer, simplesmente: “Eram tempos difíceis. Estávamos tentando acertar, mas erramos. Pedimos desculpas.”.

Quanto aos petistas, pedir desculpas equivaleria a uma confissão de culpa e uma temporada na cadeia. Mas é hora, ao menos, de parar de desafiar a lei e a Justiça (e de elogiar Geisel).

Minha coluna de hoje no Globo. https://ift.tt/2jTT08d

89 morreram ou desapareceram após reunião relatada pela CIA em que Geisel autoriza mortes; veja lista

Assim que li o memorando sobre o Geisel, minha reação foi me perguntar quantos morreram *depois* da reunião.

Sim, porque Geisel poderia ter dado um “de acordo” de araque, só para não contrariar a linha dura, e, em seguida, negar autorização em todos os casos.

Achei o “Brasil: Nunca Mais” na internet e fui contar quantos morreram após 15 de março de 1974. Parei quando cheguei a 48. E me senti à vontade para escrever minha próxima coluna no Globo sem medo de cometer uma injustiça.

O G1 fez o trabalho completo: foram 89.