Platão e Diógenes

José Luiz Alqueres, no Globo de ontem (excelente, leiam: https://goo.gl/EtHXoM), critica a pusilanimidade dos intelectuais de esquerda de ontem e de hoje, que defendem cegamente um causa indefensável, ou dela se afastam em silêncio. Poucos, diz, são os que saem apontando os erros, as distorções, a traição aos ideais:

“Esquecemos Platão. Este, estabelecido com sua Academia e reconhecido como o maior filósofo de Atenas, é atraído pelo convite de um amigo influente para se estabelecer na cidade de Siracusa, onde havia sido alçado ao poder um jovem tirano chamado Dionísio. Tal governante parecia muito aberto a se transformar no ‘rei-filósofo’ que Platão preconizava em sua famosa obra ‘A república’.

“Seduzido pela proposta, Platão vai a Siracusa por três vezes ao longo dos seguintes dez anos com a esperança de fazer de Dionísio a encarnação do rei-filósofo descrito em sua teoria ou, na pior hipótese, orientá-lo para que governasse com justiça. Em vão! O que Platão conseguiu foi reforçar em Dionísio seu caráter tirânico, ‘camuflando-o’ com tintas filosóficas.

“Contrariamente ao que fez Platão — que publicamente repudiou o horror que se tornara Siracusa sob o regime de Dionísio —, hoje intelectuais ‘profissionais’ abraçam e defendem regimes totalitários, mesmo após a exposição pública das barbaridades cometidas, dos resultados adulterados e do seu legado tenebroso.”

Platão é o maior filósofo do ocidente (Alfred North Whitehead afirmou que “toda a história da filosofia ocidental resume-se a uma série de notas de rodapé à obra de Platão”), mas não tenho simpatia por ele. Morar em sua “República” seria um inferno. Bertand Russell o definiu com clareza: “um totalitário”.

Aproveito a lebre levantada por Alqueres para falar de Diógenes, o Cínico.

Diógenes foi um filósofo famoso por andar pela ruas de Atenas com uma lâmpada acesa em pleno dia “em busca de um homem honesto”, e por sua picuinha com Platão. Simples e desapegado, estava tranquilamente lavando legumes, quando Platão se aproximou: “Diógenes, você sabe que se cortejasse Dionísio, rei de Siracusa, não precisaria lavar legumes, não?”

Diógenes olhou para Platão de soslaio: “Sim. Mas, Platão, se você lavasse legumes, não precisaria cortejar Dionísio.”.

Uma vez, Alexandre, o Grande, foi conhecer Diógenes. “Sou o homem mais poderoso de nosso tempo. Posso lhe dar qualquer coisa que queira. O que quer?” Alexandre estava em pé, e Diógenes, que estava sentado, olhou para cima e murmurou:

“Pode afastar-se um pouco para a direita? Você está bloqueando o sol.”.

Diógenes era o maior barato.

Estas e outras anedotas estão em meu livro sobre o Caminho de Santiago (cujo “ethos”em minha opinião, tem muito a ver com Diógenes, ), que, um dia, quem sabe, verá a luz do sol.

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