February 19, 2018 at 10:50PM

Minha diarista mora na Rocinha há mais de 20 anos, e sempre conversamos sobre como vai a situação lá. Semanas atrás:

Ela: “O BOPE tá lá. Tá lá pra matar. Ontem mataram quatro (o jornal do dia seguinte deu a morte de três). Parece que só um era trabalhador.”

Eu: “Mataram ‘só’ um inocente? Tá achando pouco?”

Ela caiu em si e riu do absurdo que disse. Mas eu fiquei pensando sobre como é sintomático e revelador que alguém que mora na Rocinha ache que quando morre “só” um inocente não é tão chocante.

Eu: “E os outros?”

Ela: “Ah, me desculpe, mas eu vou dizer. Se for bandido, não faz falta, não.”

Mais recentemente, quando o negócio estava mesmo pegando fogo, ela começou a contar que nunca teve medo de morar na Rocinha, mas que, agora, quando pensa no marido e nos filhos… — e, de repente, caiu num choro convulsivo. Nunca a vi assim.

Esta manhã, travamos o seguinte diálogo:

Eu: “Como está a coisa lá?”

Ela: “Tá vazio. Ninguém sai na rua. Todo mundo dentro de casa. Diz que o Exército vai lá.”

Eu: “Vai. Ainda não chegou?”

Ela: “Não.”

Eu: “E os bandidos?”

Ela: “Não tem nenhum. Sumiram todos.”

Eu: “E o que você acha disso do Exército na Rocinha?”

Ela: “Tô com medo.”

Eu: “Dos soldados?”

Ela: “Não. De eles não ficarem de noite. E os bandidos voltarem.”

Eu: “Mas os soldados devem ficar de noite também.”

Ela: “Então tá ótimo. Sem os bandidos.”

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s