03/09/2017

Uma amiga me conta, aflita, que alunos na escola de sua filha se recusaram a usar fantasias baseadas no rap porque entendem que se trata de “apropriação cultural de uma periferia acuada”. Eu já falei desse assunto na base da gozação, falo agora a sério. O choro foi apropriado pelo samba, que foi apropriado pela bossa-nova, que foi apropriada pela MPB, que foi apropriada pela tropicália. Sem apropriação cultural, simplesmente não existiria música brasileira. O blues foi inventado pelos escravos do Mississippi, apropriado pelo rhythm’n’blues, apropriado pelo rock. Elvis se apropriou do rock, os Beatles se apropriaram de Elvis e de ritmos indianos e influenciaram tudo o que veio na música depois deles. Eric Clapton se apropriou do blues e fez por ele mais do que qualquer um em qualquer tempo. Stevie Ray Vaughn, outro branco azedo, não fez mais porque morreu prematuramente. Jelly Roll Morton, um “creole” (negro de ascendência francesa) racista — muitos “creoles” eram donos de escravos negros — , se apropriou do blues e foi um dos inventores do jazz. O rap não nasceu do nada, solto no espaço. Ele é fruto de décadas de evolução musical. Não existiria sem o que foi feito pelos brancos antes dele, que não existiria sem o que os brancos apropriaram dos negros. Combater a apropriação cultural é um erro. Para começar, é uma perda de tempo: os artistas vão se apropriar do que puderem, não há o que fazer — “bons artistas copiam, gênios roubam”, decretou Picasso, o maior artista do século, o homem que se apropriou das máscaras africanas para criar o cubismo e a arte moderna. Segundo, é bom que seja assim. A arte e a cultura são processos dinâmicos, é através de influências e apropriações que se desenvolvem. Por fim, querer impedir os brancos de se apropriar de um ritmo negro não é bom para os negros. Muito ao contrário. Quando um músico branco de classe média como Chico Buarque (Chico não é de classe média há tempos, mas sua música continua sendo) compõe um rap, isso contribui para que a classe média branca reconheça o valor de uma manifestação artística negra. Isso é bom. Vedar a “apropriação cultural” da música negra pelos brancos equivale a manter os negros no gueto, e estimula o preconceito dos brancos contra os negros, o que é muito ruim. Os negros americanos sofreram muito para combater — e eliminar — a segregação racial. É só o que faltava nós, mais de 50 anos depois, começarmos a estimular a segregação novamente.

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