30/08/2017 – 2

Uma semana na Coreia do Norte (final) Outubro de 2015 (Post anterior: https://goo.gl/ofLFrZ. A integra desta série está em https://goo.gl/HWQajY)

Depois de tantos monumentos, soldados, armas e propaganda, foi um alívio visitar o interior, repleto de rios, vales e montanhas belíssimos, onde tudo é bucólico e nada é ameaçador. O principal destino era um templo budista, mas, sabedores da perseguição que o regime move contra todo tipo de religião, foi com certo ceticismo que ali chegamos. A guia afirma que o culto religioso é livre, mas diz haver apenas 60 templos budistas no país inteiro (só em Seul, na Coreia do Sul, há mais do que isso). Será que os monges não seriam atores, colocados ali para nos convencer da tolerância governamental com a religião? Era perfeitamente possível. Mas o monge nos fez sentar e executou um ritual autêntico e comovente. Os monges não usam o pin dos líderes — mas somente quando desempenham sua função: fora do templo, são cidadãos como outros quaisquer, e usam os brochinhos. O templo, único lugar onde pudemos comprar frutas (peras, mini-maçãs, mini-kiwis, todos deliciosos) é dos lugares mais belos e de maior paz em que já estive. No mesmo dia, estivemos em um dos locais mais bizarros de toda a viagem, espécie de templo profano celebrando a Amizade Internacional, ou melhor, a amizade do mundo por Kim Il-sung e Kim Jong-il: um museu com uma coleção inesgotável de presentes do mundo inteiro: carros, um avião, ursos e jacarés, objetos enviados por diversas organizações de esquerda, incluindo o PCdoB e o PT, e uma bola autografada por Pelé “para o amigo Kim Jong-il”. A DPRK é o país mais restritivo do mundo, no entanto, debaixo da carapaça comunista, existem uma economia e um mercado ainda incipientes, mas que lutam para prosperar. Durante a crise dos anos 90, os habitantes foram obrigados a produzir, vender e comprar alimentos, e o governo preferiu fazer vista grossa a condenar a população à morte por inanição. Desde a chegada de Kim Jong-un ao poder, a vista grossa aumentou, e hoje há propriedade privada para automóveis, apartamentos, bares, restaurantes e até minas — a rigor, tudo pertence ao governo, mas contratos paralegais garantem que os “donos” de facto usufruam de suas posses. No único dia em que conseguimos escapar do cerco dos guias (isso foi negociado com grande dificuldade), fomos jantar com um diplomata que conhece Pyongyang bem: nesse dia, bebemos vinho italiano e comemos lagostim, atum branco e fois-gras, algo impensável para um norte-coreano mortal (apesar de privado, é provável que o restaurante receba algum tipo de subsídio, pois o menu de nove pratos custa meros 50 dólares). Como eu disse no prólogo a esta série, os analistas mais otimistas acreditam que essa tolerância com a iniciativa privada e o crescimento da atividade comercial nos últimos anos sugerem que o país esteja no caminho de uma abertura gradual; por outro lado, a trajetória errática de Kim, com constantes ameaças e testes de mísseis intercontinentais, aponta para o lado. A verdade é que ninguém sabe o que ele pretende, ou mesmo se pretende alguma coisa, e é isso que o faz tão perigoso. A DPRK é um país diferente de todos os outros, e nossa viagem foi certamente a mais estranha e sui generis que já fizemos. De certa maneira, é uma jornada ao passado, uma visita ao apogeu da Guerra Fria; de outra, é uma viagem para *fora* do tempo, para uma realidade paralela e distópica. Há farta literatura sobre o país, mas a obra que melhor o descreve foi escrita antes de sua criação: é “1984”, de George Orwell. Voltar da Coreia do Norte tampouco é trivial. Uma vez em Beijing, experimenta-se um estranhamento tão grande quanto na chegada a Pyongyang. De repente, você não se sente mais vigiado, pode andar na rua, tomar um táxi, entrar em qualquer restaurante… quando se fica embriagado de liberdade em um país como a China, definitivamente, há algo de muito estranho acontecendo. (Este post conclui a série, mas amanhã tem um bônus de fotos para tentar responder a pergunta “que tipo de maluco vai à Coreia do Norte?”)

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