30/08/2017 – 1

Uma semana na Coreia do Norte (5 de 6) Outubro de 2015 (Post anterior: https://goo.gl/8MpfMb)

A visita ao Museu da Guerra Vitoriosa de Libertação da Pátria, dedicado à Guerra da Coreia, guiada por uma oficial do exército, é uma profissão de fé contra os americanos, que, à traição, teriam invadido o Norte em 1950, e uma ampla elegia ao Exército Popular da Coreia, que jamais teria perdido uma batalha. Considerando-se que foi o Norte que invadiu o Sul e que os americanos, entrando na guerra dois meses depois, venceram quase todas as batalhas, a versão norte-coreana é um exercício de surrealismo. A situação só se equilibrou quando os chineses entraram no conflito, e empurraram a fronteira de volta para onde estava originalmente. Admitir isso, entretanto, equivaleria a reconhecer que Kim Il-Sung provocou a morte de três milhões de pessoas (80% civis) em vão, de modo que o país se aferra à fantasia. A joia da coroa do museu fica a alguns quilômetros do edifício, descendo o rio Taedong: é o USS Pueblo, um navio-espião americano capturado em águas norte-coreanas em 1968. Os tripulantes foram libertados em troca de uma admissão por parte dos EUA de que o navio estava em uma missão de espionagem, de um pedido de desculpas e de uma promessa de não mais espionar no futuro, tudo por escrito. Foi a primeira e única vez em sua história que os americanos fizeram algo no gênero. O tratado de armistício que encerrou a Guerra da Coreia, em 1953, estabeleceu uma faixa de quatro quilômetros de largura onde ficou vedada qualquer mobilização militar, que por isso se chama Zona Desmilitarizada, ou DMZ, e que passou a servir como fronteira de facto entre as duas Coreias — imediatamente ao norte e ao sul dela estão as duas regiões mais militarizadas do mundo. A estrada até Panmunjom, logo ao norte da DMZ, 160 quilômetros ao sul de Pyongyang, está em más condições e surpreende pela largura, seis pistas!, e pelo tráfego: absolutamente nenhum. Em um dos checkpoints dessa estrada (checkpoints são comuns, pois o governo proíbe que os norte-coreanos façam viagens, inclusive domésticas), o exército exigiu inspecionar minha câmara, pois alguém julgara me ter visto fotografando militares quilômetros antes. Se fosse verdade, eu poderia ser preso. Depois de recebermos as explicações sobre a DMZ , e ouvirmos as inevitáveis loas ao glorioso exército norte-coreano e as críticas à vileza do inimigo, visitamos a cabana onde o armistício foi efetivamente assinado — vale notar que a paz definitiva nunca foi assinada, e, tecnicamente, a Coreia do Norte continua em guerra com a Coreia do Sul e com os EUA. Na cabana, estão a mesa onde ocorreram as negociações e um pequeno museu mostrando as conquistas norte-coreanas e a covardia do adversário. Demorei-me um pouco mais examinando a memorabilia, fui chamado à atenção por um soldado e, de forma ameaçadora, devidamente enxotado. O oficial que nos guiava, por outro lado, era bastante simpático. Ao saber que era um coronel sênior, equivalente a general de brigada no Brasil, fiquei um tanto cético: não achei que fizesse sentido um oficial de tão alta patente ser cicerone de turistas. Pensando melhor, entretanto, faz todo o sentido: com cerca de 1,2 milhão de militares na ativa (e mais de 8 milhões na reserva), incrível para um país de apenas 25 milhões de habitantes, a DPRK tem o quarto maior exército do mundo, e, como o país não entra em guerra há 60 anos, o que mais deve haver são militares ociosos. O exército forma um enorme contingente de mão-de-obra gratuita — escrava — para o governo, empregada em todo o tipo de trabalho, em particular na construção civil. Compreende-se por que é proibido fotografar militares trabalhando. Na DMZ há um mirante de onde é possível avistar algo que os norte-coreanos afirmam ser um muro de concreto construído pelos americanos que, supostamente, chega a ter 8 metros de altura por 19 de largura e acompanha a fronteira entre os dois países, do Mar Amarelo ao Mar do Japão. O muro não é visível dos satélites (dizem estar coberto de terra), mas não deve haver muita gente fora da DPRK capaz de acreditar que seja possível construir-se um muro de 240 quilômetros sem ninguém perceber. O ponto alto de nossa visita deveria ser a parada militar, na capital, em comemoração dos 70 anos da fundação do Partido dos Trabalhadores da Coreia, mas os guias não sabiam dizer a que horas ela ocorreria (era necessário esperar a chuva passar) ou mesmo se a veríamos. Ficamos três ou quatro horas esperando instruções até finalmente ser conduzidos a pé até uma esquina, onde, uma hora depois, já de noite e sem iluminação, pudemos ver a dispersão dos blindados (mas não das tropas) após a parada. Com esse tipo de tratamento, vai ser difícil convencer muitos turistas a visitar o país, mas, apesar da frustração, a visão dos tanques surgindo das trevas em meio ao delírio da multidão foi notável. Por falar em trevas, a falta de energia elétrica em Pyongyang é impressionante, mas ela impressiona mesmo é fora da capital: durante o percurso de duas horas de viagem até o Monte Myohang, não vimos uma única aglomeração iluminada sequer, as poucas lâmpadas eram alimentadas por geradores e existiam unicamente para iluminar os monumentos aos líderes. O hotel em que ficamos dispunha de luz por poucas horas, sempre instável. Pela manhã, a surpresa: não estávamos num vilarejo no meio do nada, mas em uma cidade de 300 mil habitantes — inteiramente às escuras durante todo o tempo. == Fotografar militares é rigorosamente proibido, então tenho poucas fotos, ou em momentos expressamente autorizados, ou em fotos contrabandeadas.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s