29/08/2017 – 1

Uma semana na Coreia do Norte (4 de 6) Outubro de 2015 (post anterior: https://goo.gl/PpXMx9)

Pyongyang é repleta de monumentos, sempre no estilo kimilsunista: colossal, suntuoso e kitsch. Um dos mais grandiosos é o do monte Mansu, em homenagem a Kim Il-sung e Kim Jong-il. Kim Il-sung é o Pai da Pátria, o Grande Líder, o Presidente Eterno, que, instalado por Stalin à testa do país em 1948, governou a Coreia do Norte com mão-de-ferro até sua morte em 1994; Kim Jong-il, o Querido Líder, o Eterno Secretário-Geral, seu filho e herdeiro, ficou no poder desde a morte do pai até o fim de 2011 (o ditador atual é seu filho, Kim Jong-un, o Supremo Líder). São duas estátuas gigantescas que, com semblante satisfeito, miram o infinito, cercadas por outros monumentos mostrando o povo, que marcha rumo a um futuro glorioso. É espantosa a quantidade de pessoas — em meia hora, centenas — que depositam flores aos pés das estátuas e se curvam em reverência (mesmo dos turistas exige-se que se curvem perante os monumentos aos líderes). Como aconteceria tantas vezes, ficamos em dúvida se aquelas pessoas faziam aquilo de sua própria iniciativa, ou se estavam ali apenas para nos impressionar. O culto à personalidade na DPRK supera em muito aqueles outrora praticados na URSS, na China e em Cuba. Todo habitante do país carrega no peito um pin com a imagem dos líderes e é obrigado a reservar uma parede em sua casa para pendurar seus retratos; todos os prédios públicos têm imagens dos líderes e uma inscrição dizendo as datas de suas visitas. Insultar um líder é o mais grave dos crimes, e a definição do que é insulto é ampla. Ao fotografar as estátuas dos líderes, é proibido cortar seus pés. Ao dobrar jornais, as fotos dos líderes devem ser mantidas intactas, e é proibido jogar fora jornais que contenham tais fotos (para onde vão os jornais velhos é um mistério). O assunto é tão grave que, em 2009, um cidadão que queimou notas de dinheiro com a efígie de Kim Il-sung foi condenado por traição e fuzilado. O Arco do Triunfo, construído em 1982 para homenagear o papel de Kim Il-sung no combate aos japoneses tem 25.500 blocos de granito, um para cada dia da vida do Grande Líder até então. É motivo de grande orgulho para os norte-coreanos que o Arco seja “como o de Paris, só que maior”. De fato, é muito maior, mas falta-lhe a legitimidade histórica que sobra no outro. Segundo a hagiografia, Kim Il-sung assumiu a liderança da resistência coreana em 1925 e a liderou incansavelmente até a vitória, em 1945. O problema é que, em 1925, Kim tinha apenas 12 anos, o grupo que ele, de fato, liderava em 1940 foi derrotado e quem expulsou os japoneses da Coreia foram as bombas atômicas americanas. Esse tipo de mitificação e falsificação histórica é martelado nas cabeças de norte-coreanos e turistas o tempo todo, e rapidamente se torna nauseante. Quando fazemos perguntas difíceis, os guias repetem a cantilena oficial sem constrangimento e são capazes de afirmar, sem piscar um olho, que Kim Il-sung assumiu o comando da resistência aos 12 anos. Uma das perguntas que os visitantes mais se fazem é até que ponto os guias acreditam no que dizem (a lavagem cerebral começa na infância) e até que ponto sabem que estão repetindo inverdades, mas o fazem porque não têm alternativa. A Coreia do Norte é um país onde só existe imprensa oficial — aparelhos de rádio e TV têm os sintonizadores travados no canais de propaganda, e alterá-los para que possam sintonizar canais da China e da Coreia do Sul é crime gravíssimo, e leva a um campo de concentração ou à morte — e que restringe quase absolutamente as comunicações com o exterior. Mesmo assim, há um crescente fluxo de informações clandestinas por meio de rádios e TVs alterados, impressos, DVDs e, ultimamente, pendrives. Os guias se controlam para não dizer o que pensam nem demonstrar interesse demais, mas, quando o assunto é a Coreia do Sul, ficam aflitos de curiosidade. As livrarias que visitamos, para turistas, contêm única e exclusivamente obras escritas pelos Kim ou sobre eles. Não pudemos ir às livrarias para os locais, mas, aparentemente, há maior variedade: além da imprensa oficial, há muita literatura russa, e também clássicos ocidentais, como Dickens e Shakespeare (é fácil entender que Oliver Twist ou David Copperfield, sobre as más condições de vida na Inglaterra do século XIX, seja liberados, mas um censor atento não deveria deixar passar o Rei Lear ou Júlio César, por exemplo). Países ditos socialistas têm um gosto especial por embalsamar os pais da pátria, como fizeram com Lênin, Mao e Ho Chi Minh, mas a Coreia do Norte é um caso à parte. No Palácio do Sol Kumsusan, um edifício gigantesco e espetacularmente solene, repousam não apenas os corpos do Grande Líder e do Querido Líder, mas também muitas de suas propriedades, incluindo carros, barcos e até um vagão de trem, além de prêmios, presentes e medalhas, como faraós modernos. Os visitantes curvam-se em frente, à direita e à esquerda do corpo de cada líder, num total de seis reverências em uma manhã. O culto à personalidade é o principal aspecto da propaganda norte-coreana, mas não é o único. Por toda parte há cartazes, quase sempre vermelhos, com soldados de fuzil na mão e palavras de ordem conclamando o povo a defender o país e lutar até a vitória inevitável. E a música, marcial e gloriosa, que toca 24 horas por dia em toda parte, é uma provação contínua. == Quem procurar, vai encontrar uma jovem senhora de sobrenome Rónai em uma ou outra das fotos. Como é proibido cortar a cabeça dos líderes nas fotos, fiz questão de fazê-lo. Para quem não tinha percebido o brochinho das moçoilas no metrô, segue a foto de novo. Reparem a clareza do pensamento do poeta angolano.

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