28/08/2017

Uma semana na Coreia do Norte (3 de 6), Outubro 2015 (post anterior https://goo.gl/XbKNrN)

Os norte-coreanos, especialmente crianças e adolescentes, sorriem para os visitantes, que são, para eles, uma curiosidade: até recentemente os únicos estrangeiros no país eram funcionários de embaixadas, mas não sorriem muito entre si, e os adultos parecem tristes, ou talvez resignados. Mesmo nas danças em massa, em que centenas de pessoas dançam em praça pública, e das quais nos foi permitido participar, os norte-coreanos nos fazem bem-vindos, mas ninguém sorri. Em uma das raríssimas vezes em que nos foi permitido andar na rua em meio aos norte-coreanos, entretanto, alguns de nós participaram de um tiro ao alvo com os locais, que se divertiram bastante conosco. As mulheres costumam ser belas, sempre bem vestidas, muitas trajam o joseonot, o vestido típico, e levam os cabelos limpos e impecáveis, o que surpreende, dada a escassez de água — não por acaso, cabelos compridos são sinônimo de status. Os homens não são bem-apessoados, mas têm uma elegância sóbria em suas calças e jaquetas verdes escuras. Além de magros, são todos muito baixos: não espanta, dado que a subnutrição é endêmica há décadas (como só se pode ir aonde o governo permite, não sabemos se ainda há fome e miséria como houve anos atrás). A agricultura segue o modelo soviético, de fazendas estatais, que nunca funcionou bem em parte alguma, com a agravante da pouca mecanização: não vimos praticamente nenhum trator. Toda a semeadura, o transplante do arroz e a colheita são feitas manualmente, e a produtividade é tão baixa que todos os habitantes do país (com exceção da altíssima nomenklatura) participam da colheita — e, ainda assim, o país depende de ajuda humanitária estrangeira para se alimentar. A creche rural que visitamos era um modelo de perfeição socialista: crianças bonitas, bem alimentadas e sorridentes, que tiram os visitantes para dançar ao som de um acordeão tocado por uma simpática monitora. Lindo, comovente e obviamente falso. Mas acreditamos quando a guia informou que os pais agricultores moram longe e só ficam com os filhos por um dia a cada dez. Os norte-coreanos comem pouco e mal, mas a comida servida aos turistas (em restaurantes onde não há clientes locais) é farta e variada — mas nem por isso saborosa. Oscila entre condimentada e extremamente condimentada e é sempre fria: em um país com pouca energia, aquecer alimentos é proibido, e houve um tempo em que dava cadeia. Apesar disso, os seis holandeses de nosso grupo adoraram tudo, e quem provou a sopa de carne de cachorro elogiou. Curiosamente, não há frutas. A cerveja é excelente, mas o soju, destilado similar ao baijiu chinês não desperta interesse; as bebidas alcoólicas importadas são muito caras, mesmo para turistas, com exceção do Cognac, a bebida preferida dos poderosos, que custa o mesmo preço do Ocidente — bebidas importadas, naturalmente, só são acessíveis à nomenklatura e aos turistas. A relação do país com os turistas é contraditória. De um lado, o país precisa de nós, não apenas de nosso dinheiro, mas para angariar simpatias que possam levar a uma redução das sanções internacionais que visam a combater sua política nuclear — o aeroporto estalando de novo é um esforço nesse sentido: a Coreia do Norte espera receber dois milhões de turistas em 2020. Por outro lado, somos uma excelente fonte de informações para o povo norte-coreano, e o governo teme, com razão, que essas informações fomentem a rebeldia que acabará por derrubá-lo. O resultado é que os guias nos tratam bem, mas as autoridades nos olham com profunda suspeição.

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