27/08/2017 – 1

Uma semana na Coreia do Norte (2 de 6) Outubro de 2015 (post anterior: https://goo.gl/Tj4uzf) Quase todos os estrangeiros ficam hospedados no Yanggakdo International, um hotel enorme, de 47 andares, e decadente que lembra os antigos hotéis de Brasília. A preferência pelo Yanggakdo se explica por ficar ele em uma ilha (no rio Taedong, que atravessa a cidade), o que facilita o trabalho da segurança. No topo do hotel há um restaurante giratório que de fato funciona, o que parece uma afronta em um país com grave escassez de energia. O elevador do Yanggakdo não marca o quinto andar, mas ele existe. Segundo rumores na Internet, nesse andar estariam os equipamentos para grampear quartos e telefones. Alguns de nós desceram pelas escadas e encontraram não um, mais dois (ou um e meio) andares, com as portas devidamente trancadas. Esses turistas foram vistos pela segurança no circuito de TV, assediados, interrogados e ameaçados de ser impedidos de deixar o país se não pagassem cem dólares (inesperado, dado que corrupção é crime passível de pena de morte). Pyongyang é uma cidade grande e ampla, com mais de três milhões de habitantes e mais automóveis do que esperávamos. Os prédios de apartamentos são muito altos (até os anos 1970, a Coreia do Norte era consideravelmente mais rica do que sua irmã do sul), na feia arquitetura stalinista que se encontra em Moscou e na Europa Oriental, mas são coloridos, em tons pastel de azul, verde e rosa, o que lhes confere uma certa leveza. Como chegamos no feriado mais importante da década, todos (!) os prédios do país haviam recebido uma mão de tinta, mas logo perceberíamos que, por baixo da tinta, estavam caindo aos pedaços. Em razão do feriado, o centrinho da capital estava todo iluminado, mas, em volta, a cidade permanecia às escuras. Como falta eletricidade praticamente o tempo todo, o governo entrega os andares mais baixos aos idosos e deixa os andares mais altos para os mais jovens. Falta de energia implica falta d’água, o que significa que, por toda parte, há cisternas improvisadas dentro dos banheiros, e a água é usada por meio de baldes e cuias. Não sabíamos bem o que esperar, mas com certeza esperávamos algo extraordinário, de modo que as primeiras cenas que vimos ao descer do ônibus chegaram a nos chocar de tão prosaicas: pessoas conversando, bicicletas passando para cá e para lá, homens pintando canteiros. O suprassumo do realismo socialista. Como no jogo dos sete erros, entretanto, a sensação de estranhamento era palpável, apesar de ser difícil dizer exatamente o quê estava errado. Parecia que faltava às pessoas algum propósito, como se seus corpos estivessem ali, mas suas mentes estivessem em outro lugar. Não havia dúvida para nós de que aquelas pessoas haviam sido plantadas ali, que, como afirmam tantos livros, faziam parte de uma encenação para passar aos turistas uma falsa impressão de normalidade, quando a Coreia do Norte é tudo menos um país normal. O resultado obtido é o oposto, uma impressão de falsidade, que nos perseguiu por toda parte e sempre que víamos uma cena um pouco menos óbvia, perguntávamo-nos se ela seria de verdade ou não. O Parque Aquático, supercolorido, cheio de piscinas, chafarizes e escorregadores, com um incrível volume de água e uma temperatura de sauna, como fazendo pouco da escassez de energia e de água, parecia meio vazio no momento em que chegamos, mas em minutos ficou cheio de banhistas; as outras áreas do clube, as lanchonetes, a sala de jogos e as quadras de tênis, no entanto, permaneceram desertas. O supermercado também parecia artificial, não sabemos por quê, mas é diferente daqueles encontrados em qualquer país onde já estivemos. A maioria dos produtos tem o prazo de validade vencido: há empresas que compram em outros países produtos vencidos no atacado e os revendem para a Coreia do Norte com grandes descontos. Naturalmente, o parque e o supermercado são para a elite, não para o povo, que obtém mantimentos nos centros de distribuição do governo e se diverte jogando Janggi (o xadrez coreano) e outros jogos.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s