14/08/2017 – 1

Hoje faz 30 anos que perdemos Claudio Abramo, um dos maiores jornalistas que o Brasil já teve. Claudio era grande amigo de meu pai, e, aos 17 anos, fiquei um mês hospedado em sua casa, em Londres, quando era correspondente da Folha. Figura fascinante, dono de uma inteligência aguda e brilhante, profundamente culto, sofisticado, irônico, mas, às vezes, insensível e impiedoso: ninguém que o conhecesse lhe podia ser indiferente: era do tipo que ou se amava ou se odiava, sem meio termo. Eu precisei de poucos dias de convivência para entrar para o primeiro grupo. Eu passava o dia fora, mas voltava a tempo de jantarmos os três, Cláudio, sua mulher, Radhá, e eu. De vez em quando íamos ao cinema, normalmente aos fins de semana. Uma vez houve um pequeno impasse: Radhá queria ver o último filme de Truffaut, “O Último Metrô”, ou, como alternativa, um filme alemão chamado Alemanha, Mãe Pálida”. Cláudio queria ver um filme de ação com Lee Marvin e Charles Bronson. Dizia que tudo o que interessa está nos livros, que esse negócio de cinema de arte ou de tese é bobagem, que cinema é entretenimento e só. Além disso, dizia, cinema é sempre a mesma coisa, só varia conforme a nacionalidade. Todo filme francês, por exemplo, conta a história do dilema de uma moça que não sabe se fica com um sujeito ou com um outro; no fim , acaba ficando com os dois, todo mundo feliz. Já o cinema alemão se resume a dizer que a 2a guerra não foi bem assim, que os alemães são uns pobres coitados que sofreram muito etc. E cinema americano é perseguição, tiro e pancadaria. Muito melhor o cinema americano, que pelo menos não é pretensioso nem te mata de tédio. Com o tempo, assistimos aos três. No “Metrô”, Deneuve não sabe se se mantém fiel ao marido, que está se escondendo da Gestapo, ou se fica com o Depardieu; no final, ficam todos amigos, satisfeitos, ela com os dois. Já “Alemanha” é a história de um pobre soldado da Wehrmacht, que sofre o diabo no front e depois volta para Berlim, onde sua casa, coitado, foi destruída, a família passa fome, um pesadelo. Em “Perseguição Mortal”, Marvin sai no encalço de Bronson, com os tiros, sopapos e mortes de costume. Claudio seria ótimo crítico de cinema se o levasse a sério. Voltei de Londres falando italianado, e só então entendi a maneira de falar que meu pai de vez em quando adotava. Era tudo imitação do Cláudio. Mas imitar o Cláudio não era mau: segundo o folclore, o Cláudio imitava Mario Pedrosa, que imitava Trotsky, que imitava Deus. Cláudio Abramo, velho amigo, muita saudade.

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